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07/03/2004

SOS Vida!

A moral é definitivamente uma visão enfadonha que serve de divertimento aos ociosos quando se acomoda às circunstâncias; também é verdade que se suavizou um pouco para tratar com os modernos, a quem os rabanetes já não inspiram o mesmo entusiasmo, e os moralistas já se dão ao luxo de não desprezar as riquezas . É preciso apenas desconsiderá-las ou não as considerar, divertidas expressões que provam até que ponto a seita já não sabe o que fazer quanto à escolha das palavras e quanto à escolha dos meios. A pobre Moral ressurgiu entre os modernos apenas para morrer de vez. Em vão voltou a agitar todas as visões dos antigos, todas as suas diatribes contra as paixões e as riquezas; sofre hoje de um vício que a condena ao nada: o de se deixar isolar das práticas supersticiosas, única distracção que convém à burguesia e à populaça civilizada. Os charlatães designados de moralistas bem podiam prever que ficavam perdidos ao separar-se da religião. Os povos só respeitam o homem que os leva à mangedoura de Deus e do soberano (quer dizer: só temem a forca e o inferno), e se bem que o inferno faça figura de quinta roda no mecanismo social, possui verdadeiramente uma utilidade acentuada, que é a de exercer sobre as crianças civilizadas tirania de opinião, habituando-as desde muito cedo ao terror que é o pivot dos costumes civilizados. Neste sentido, parece-me que o inferno foi uma boa invenção.

Charles Fourier, Escolha de textos, tradução, prefácio e notas de Ernesto Sampaio, Edições Salamandra

06/03/2004

Para uma amiga que hoje se casa!

L., não te esqueças:

"As correntes do matrimónio são pesadas e são precisos dois para as arrastarem, por vezes três."

Alexandre Dumas

27/02/2004

C'est la vie (III): A propósito de uma conversa ao telefone!

"O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito ténue. Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas [Goethe, na verdade, adverte-nos de que "nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos". Mas isso pode ser um exagero].
Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.
Não admira que, sob a pressão de todas essas possibilidades de sofrimento, os homens se tenham acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade - tal como, na verdade, o próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto princípio da realidade -, que um homem pense ser ele próprio feliz, simplesmente porque escapou à infelicidade ou sobreviveu ao sofrimento, e que, em geral, a tarefa de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano".


Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização, Imago

26/02/2004

Évora-Porto (6 h): Favas!

A fava: uma história alucinante

"É indiscutível que a história mais sobrecarregada de desastres é a da fava.
Segundo parece, inicialmente terá prosperado no Afeganistão e nas encostas baixas do Himalaia, de tal modo que no ano 6500 a. C. já se encontrava difundida [...] nas próprias costas do Mediterrâneo e a partir daí foi uma invasão completa. [...]
Encontraram-se favas nas ruínas de Tróia. Não deixa de ser curioso o caso dos Egípcios: depois de um período inicial de entusiasmo, chegou-se ao extremo fanático de «nem sequer olhar para elas». Nessa altura, destacou-se um grupo de sacerdotes, que Pitágoras conheceu durante as suas viagens; segundo estes sacerdotes, qualquer fava podia abrigar o espírito de um defunto por transmigração.
Mas havia também outros considerandos; se o sol incidia sobre elas, o seu odor era o mesmo do esperma do homem. Quando germinavam, adquiriam uma forma que imitava o orgão sexual feminino, e muitas outras «preciosidades», qual delas a mais anedótica. Esta propaganda, pelo menos no essencial, foi trazida por Pitágoras na sua bagagem quando regressou do Egipto, para onde viajara inicialmente com uma certa carga de prata e ouro que lhe permitisse pagar uma boa aprendizagem das ciências egípcias [...]. E temos então o principal inimigo grego das favas [...]. A doutrina egípcia ia-se espalhando, de tal modo que Empédocles (mais um supersticioso) de Agrigento [...] se preocupou em divulgar que «fava» significava «testículo». Outro personagem ilustre afectado pela mesma fobia foi Plutarco, que atribuía à sua ingestão sonhos altamente licenciosos, coisa impossível de manter durante muito tempo sem um mínimo de verificação empírica; não deixando assim de seguir a «linha freudiana».
No entanto, e apesar de tudo isso, a maioria dos Gregos comia favas sem qualquer escrúpulo, e gostava especialmente da verde, o que fez com que aumentassem as plantações. Por esse motivo, Pitágoras, perseguido em Metaponte, onde escapou de uma morte certa ao encontrar-se perante um campo de favas, coerente com aquilo em que acreditava, optou sem hesitação por deixar que o capturassem (talvez tenha pensado que podia transmigrar para uma daquelas favas).
[...] Já no final do Império Romano, S. Jerónimo voltou à carga e proibiu-as às suas religiosas por razões idênticas às de Plutarco e porque «inquietavam» (sic), faziam titilar «os genitais». Partamos do princípio de que ele estava convencido disso. Outros [...] afirmavam que as favas poderiam ser uma causa de esterilidade. Qualquer destes aspectos sempre foi motivo de grandes debates. Na época medieval, com outras mentalidade, insistir-se-á em que as favas provocam flatulência."


César Aguilera, História da Alimentação Mediterrânica, Terramar

Favas!

21/02/2004

84:66:86

"Fora do acasalamento (para o Diabo, então, com o Imaginário), há este outro abraço que é um enlace imóvel: estamos encantados, enfeitiçados: estamos no sono, sem dormir; estamos na voluptuosidade infantil do adormecimento: é o momento das histórias contadas, é o retorno à mãe («na calma dos teus braços amantes», diz uma poesia musicada por Duparc). Neste incesto reconduzido, tudo então fica suspenso: o tempo, a lei, o proibido: nada se esgota, nada se quer: todos os desejos estão abolidos pois parecem definitivamente realizados."

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, Edições 70

Favas e Salsichas Calabresas!
Djadja!
Inspiração! Expiração!
Fim-de-semana.

Cinema: Sala 2*Fila D*Lugar 10*21-02-2004*16:45*M/12*5.00*Londres

Lost in Translation/O Amor é um Lugar Estranho

Realizado por: Sofia Coppola

Argumento original: Sofia Coppola
Fotografia: Lance Acord
Banda Sonora: Brian Ratzell (produtor executivo)
Produção: Ross Katz, Francis Ford Coppola, Fred Roos
Actores: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris
Género: ComDra
Classificação: M/12

Estúdios: American Zoetrope, Element Films
EUA, 2003, Cores, 105 min.

Insónias em Tóquio...


Cinema: Não Marcado*20-02-04*18:40*Sala: 10*M/12*5.00*Alvaláxia

Big Fish / O Grande Peixe

Realizado por: Tim Burton

Argumento adaptado: John August
Romance: Daniel Wallace
Fotografia: Philippe Rousselot AFC/ASC
Banda Sonora: Danny Elfman
Produção: Richard D. Zanuck, Bruce Cohen & Dan Jinks
Actores: Ewan McGregor, Jessica Lange, Albert Finney, Billy Crudup, Helena Bonham Carter
Género: ComDra
Classificacao: M/12

Estúdios: Columbia Pictures Corporation
EUA, 2003, Cores, 110 min.

Alice in Wonderland...

20/02/2004

Viagem de Comboio: IC 524; CARR: 22; LUG: 86 (nfum); 20:05 (19/02); de: PCA a: LSA [16.00]

"É um risco ter seja o que for; ter um carro, ter um par de sapatos, ter um maço de cigarros. Não há o suficiente para todos, não há carros suficientes, sapatos, cigarros. Há gente a mais e coisas a menos. O que existe deve entrar em circulação de forma a que todos tenham a hipótese de serem felizes um dia. É essa a teoria; agarremo-nos à teoria e aos confortos da teoria. Nada de maldade humana, apenas um vasto sistema circulatório, onde a piedade e o terror são irrelevantes. É assim que se deve compreender a vida neste país: no seu aspecto esquemático. Caso contrário, uma pessoa pode dar em doida. Carros, sapatos; mulheres também. O sistema deve ter um espaço para as mulheres também e para o que lhes acontece."

J.M. Coetzee, Desgraça, Dom Quixote

19/02/2004

C'est la Vie (II)

"Tantas mãos para transformar este mundo e tão poucos olhares para o contemplar".

Julien Gracq, Lettrines (1967)

Visões do Aquário (Parte IV - Queixume)

"O que em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não poder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


(9-10-1934)

Álvaro de Campos, Poesias, Clássica Editora

A Crise!

Pedido de Emprego

"Há pessoas que fazem fortuna, outras depressões, outras filhos. Há as que fazem humor, há as que fazem amor e as que fazem dó.
Há muito tempo que eu procuro fazer qualquer coisa! Não há nada a fazer: não há nada a fazer."


Jacques Rigaut, 3 histórias 3, Antígona

C'est la Vie

"Vim a este mundo não, principalmente, para o transformar num bom local para viver, seja ele bom ou mau. Um homem não tem obrigação de fazer tudo, tem de fazer somente alguma coisa; mas, por não ser capaz de fazer tudo, não é necessário que cometa erros."

Henry Thoreau, A Desobediência Civil, Antígona

Visões do Aquário (Parte III - Solidão)

"Eu devo ser o homem que mais ama no mundo pois nunca tive um amigo"

Arthur Cravan

Visões do Aquário (parte II - Virtudes)

"Sabia ouvir. E sabia ler. Não nos livros, isso todos sabem, o que ele sabia era ler as pessoas. Os sinais que as pessoas trazem consigo: lugares, sons, odores, a sua terra, a sua história... Toda escrita, em cima de cada um. Ele lia, e com um cuidado infinito catalogava, arrumava, ordenava... Todos os dias acrescentava um bocadinho àquele imenso mapa que andava a desenhar na cabeça, imenso, o mapa do mundo, do mundo inteiro, de uma ponta à outra, cidades enormes e cantos de bares, longos rios, pântanos, aviões, leões, um mapa maravilhoso. E viajava por ele como um deus, enquanto os dedos lhe deslizavam pelas teclas, acariciando as curvas de um ragtime.

Alessandro Baricco, Novecentos, Difel

Voando sobre um ninho de Cucos: quem é o perseguidor?

O Navio e o Homem

"Reparando num navio que navegava no mar da política, rumo à Presidência, uma Pessoa Ambiciosa pôs-se-lhe no encalço ao longo da orla marítima; no entanto, porque os olhos do povo estavam fixos no navio, ninguém reparou no perseguidor. Visivelmente aborrecido com este facto, e consciente de que não era aquático, deteve-se e gritou por entre o rugido tumultuoso das ondas:
- Risquem o meu nome da lista de passageiros!
De volta por sobre as águas, cavernosa e desapiedada, como riso de além-tumulto, troou a voz do Capitão:
- Não consta!
E ali mesmo, no centro de um milhão de olhares convergentes, se quedou a Pessoa Ambiciosa entre o Sol e a Lua, murmurando tristemente para os seus botões:
-Náufrago sou, raios o partam!


Ambrose Bierce, Esopo emendado & outras fábulas fantásticas, Antígona

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